segunda-feira, julho 31, 2006

Permanência

Permanência


que queres cancelar?
o encontro com o amor;
a viagem do amanhã;
o compromisso consigo?

o que queres visualizar?
a mesma estrada trilhada;
o mesmo ar que te envolve;
os mesmos seres que éramos?

não há como submeter
o mundo ao desejo teu
o tempo ainda segue
há vida pra se viver

o futuro se anuncia
não negue o movimento

Sonho

Morreu meu sonho
de ser mestra ou doutora
na universidade
Passou o tempo de sonhá-lo

Morreu meu sonho
de ter bodas de diamante
no casamento que tive
Desfez-se em tempo passado

Ainda vive o sonho
de escrever em versos
a vida vivida
Brota a todo momento em mim

Clareado

Clareado

quando escrevo as palavras
algo escuro se vai
pra longe de mim

quando registro o pensamento
algo recolho de claro
pra dentro de mim

quando brota um poema
deixo uma brecha da leitura
que fiz do sonho
acordado em mim

Transatlânticos

Transatlânticos


Nos barcos de papel que hoje faço
escrevo um poema de Quintana
o poema cujas asas batem forte
e levam os meus barcos ao oceano

segunda-feira, julho 24, 2006

Agradecimento

Ao meu amigo Ludiro, que conheci no orkut, através de seus poemas
e que me presenteou com esse blog, muito obrigada!


Que você, também, Ludiro, encontre muitos amigos, sempre dispostos a ajudá-lo, caso você precise.

MariaAngélica/Bilá

Identidade

Identidade

Ser Angélica
Mas não ser anjo
Ser Maria,
E não ser imaculada
Tocar-me
Ser tocada
Olhar-me mulher de desejos...
Ser olhada.
Apesar do nome,
Sexuada,
amante e amada.

Síntese

Síntese


Já fui Maria
simplesmente

Maria Angélica
na escola
somente

Já fui e sou filha
Tenho sido
esposa
mãe,
mestra,
avó,
irmã,
amiga...

Estou sendo agora
Maria Angélica
nova mente
eu, comigo,
com outros
sendo,
síntese de todas,
eu
singularmente


Conclusões

Conclusões


Por medo de me perder
é que você
acabou me perdendo de vez

Por construir muros
que eu escalava
a duras penas
Por colocar algemas
cujas chaves escondidas
me desafiavam a buscar
o perdido

Por me impedir
você me empurrou
caí em um precipício
que aprendi a escalar
transformei-o em um pico
a alcançar

Na subida,
Posso cair novamente
mas encontrei o caminho
Já sei sair

domingo, julho 09, 2006

Carlos Drumond de Andrade

Li e gostei

Perder, ganhar, viver
Colunas

Drummond escreveu este texto para o Jornal do Brasil logo após a eliminação da seleção brasileira diante da Itália na Copa do Mundo da Espanha, em 1982. Nada mais atual e oportuno o lirismo de nosso maior poeta para enaltecer a vida como a maior dávida do ser humano, muito além das Copas e dos grandes negócios.

03/07/2006 - Carlos Drumond de Andrade, Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?



Fonte: http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=338